A origem da grande quantidade de ásanas do Yoga moderno

Muitas pessoas pensam que a grande quantidade de posturas do Yoga moderno é invenção dos novos “professores”, mas o estudo de alguns manuscritos recém-descobertos aponta para o fato de que na Índia pré-invasão britânica já havia a prática de uma grande variedade de ásanas.

Vários autores já apontaram o fato de que textos clássicos de Yoga mencionam apenas algumas dezenas de ásanas. Enquanto o Yoga Sutra de Patanjali se restringe a dizer que ásana é uma postura firme e agradável, o Yoga Bhasya de Vyasa ao Yoga Sutra menciona apenas 12 ásanas:

  1. padmásana;
  2. vírásana;
  3. bhadrásana;
  4. svastikásana;
  5. dandásana;
  6. sopáśrayásana;
  7. paryankásana;
  8. krauñcanishdanásana;
  9. hastinishadanásana;
  10. ushtranishadanásana;
  11. samasamsthánásana;
  12. sthirasukha ou yathásukásana.

Além de serem poucos, grande parte dos ásanas mencionados são sentados e muitos autores dizem que o único propósito do ásana é habilitar o corpo a conseguir passar um bom tempo sentado em meditação.

Atualmente, quando se fala em Yoga as pessoas pensam principalmente em posturas físicas. Alguns leigos ainda associam yoga/ásanas com Hatha Yoga. Porém, mesmos textos clássicos de Hatha Yoga como Śivasamhitá (menciona apenas 6 ásanas), Hathapradípiká (menciona apenas 15 ásanas) e Gherandasamhitá falam de poucos ásanas. A Gherandasamhitá é a que menciona a maior quantidade de ásanas, mas são apenas trinta e dois.

Se formos a alguns sites que falam de Yoga, podemos encontrar até softwares que automatizam “a criação” de ásanas e de sequências. Por exemplo, o site Yoga Journal lista uma grande quantidade de ásanas e sugestões de sequências.

O que ainda está faltando na literatura especializada é um estudo que indique se essa proliferação de ásanas é simplesmente uma influência ocidental no Yoga ou se existe alguma conexão com as fontes tradicionais, ou se existem textos tradicionais que indiquem que eram feitas práticas em que a execução de uma grande quantidade de ásanas era importante.

Neste sentido, recentemente, Jason Birch publicou um capítulo intitulado “The Proliferation of Asana-s in Late-Medieval Yoga Texts”, no livro “Yoga in Transformation”. O capítulo de Jason Birch se fundamenta na descoberta de vários manuscritos de textos medievais de yoga que contém listas de mais de oitenta e quatro ásanas. Segundo o autor, esse número é canônico e é mencionado em vários textos de yoga. O que faltava, até o momento, eram textos que descrevessem esses ásanas, pois as menções aos oitenta e quatro eram apenas listas de nomes ou apenas menção ao número.

Jason Birch argumenta que, de fato, está claro que mais de oitenta e quatro ásanas eram praticados em algumas tradições do Hatha Yoga antes dos britânicos chegarem à Índia. O mais incrível, para quem achava que ásana era apenas para sentar e meditar, é que a maioria dos ásanas descritos nos  textos recentemente descobertos não eram posturas sentadas, mas posturas complexas e que demandavam muito esforço físico, algumas envolvendo movimento repetitivo, controle da respiração e uso de cordas.

Além da grande variedade de ásanas descritos, os novos manuscritos descobertos apontam para o fato de que os ásanas eram executados não apenas como alongamentos ou exercícios físicos como alguns “professores de yoga” ensinam (ou como é ensinado em algumas academias de musculação). A execução de ásanas envolvia movimento cíclico da respiração entre o abdômen e a cabeça, por exemplo. Em alguns trechos desses manuscritos os ásanas são descritos como kriyás, que combinam técnicas elaboradas de pránáyáma com ásanas complexos.

Outra característica interessante que aparece em um dos novos manuscritos é a sequência de ásanas em que o praticante deve ser capaz de realizar ásanas fundamentais antes de seguir para ásanas mais complexos.

Segundo Jason Birch, a hipótese de Sjoman de que alguns ásanas derivam de sistemas indianos de artes marciais continua válida, mas a contribuição do novo manuscrito foi situar esses ásanas no Hatha Yoga. Além disso, o novo manuscrito deixa claro que hathayogis praticavam ásanas dinâmicos, antes da influência britânica.

Por fim, Jason Birch traça algumas hipóteses sobre a influência de textos derivados desses manuscritos nos sistemas de Yoga desenvolvidos pelos alunos de Krshnamácárya (Patabhi Jois, Iyengar, Desikachar, Kaustubh, etc). Os alunos da linhagem de Krshnamácárya mencionam um texto chamado Yoga Kurunta que Jason Birch diz não ter encontrado nenhuma cópia em bibliotecas da Índia. Mas pelos relatos dos alunos da linhagem há alguma influência dos novos manuscritos nesse suposto texto chamado Yoga Kurunta.

Finalmente, a origem da míriade de ásanas do Yoga moderno está começando a ficar clara.

Os Frutos da Mente Controlada – B.G 4,21

No verso 21 do capítulo 4 da Gita, Shri Krishna nos fala dos frutos de se ter uma mente controlada.

A pessoa da qual a mente é controlada [e] pela qual toda propriedade é abandonada, fazendo apenas a ação [de manutenção] do corpo, não obtém o resultado da ação errada.

Texto em Sânscrito

निराशीर्यतचित्तामा त्यक्तसर्वपरिग्रहः |

शरीरम् केवलं कर्म कुर्वन्नाप्नोति किल्बिषम् ||

Tradução Detalhada

निराशीर्यतचित्तात्मा = निराशी: + यत + चित्त + आत्मा

निराशी: = masculino, nominativo, singular => sem desejo pelo resultado

यत = masculino => governado, controlado

चित्त = neutro => mente

आत्मा = masc, nom, singular, raiz Atman => pessoa

 

((यत + चित्त  KD) + आत्मा BV6) = a pessoa da qual a mente é controlada

 

त्यक्तसर्वपरिग्रहः = त्यक्त + सर्व + परिग्रहः

त्यक्त = ppp => deixado, abandonado

सर्व = masc. => todos, tudo

परिग्रहः = masc. Nom. sing. => escolha, aquisição, possessão, propriedade

 

( (त्यक्त  + सर्व KD) + परिग्रहः BV3) => aquele por quem toda propriedade é abandonada

 

शरीरम् केवलं कर्म कुर्वन्नाप्नोति किल्बिषम्

शरीरम् = masc. Acus. ou neut. Nom. => o corpo

केवलं = indec. => sozinho, somente, apenas

कर्म = neutro nominativo/acusativo singular, raiz karman

कुर्वन् = raiz kurvat, particípio => fazendo

न = indec. => não

अप्नोति = verb. 3 singular presente => ele obtém , classe 5

किल्बिषम् = neutro nom/acus singular => resultado da ação errada (pecaminosa)

 

Tradução detalhada do verso 38 do capítulo 10 do Tripura Rahasya

A tradução do verso 38 do capítulo 10 menciona “a chegada à realidade residual”. A que esta palavra residual se refere? Vamos analisar o texto original em sânscrito na tentativa de entender esse termo.

Texto em sânscrito

सर्वत्राखिलमात्मानमिति  भूयो न भावयन्

शेषमभ्युपगम्यान्त: स्वस्थो भव निजात्मना

Texto transliterado

sarvatrākhilamātmānamiti bhūyo na bhāvayan

śeṣamabhyupagamyānta: svastho bhava nijātmanā

Decomposição palavra por palavra

सर्वत्र (sarvatra)  => palavra indeclinável, significado: em todo lugar.

अखिलम् (akhilam) => palavra indeclinável, significado: inteiramente, totalmente.

आत्मा (ātmā) => palavra masculina, nominativo, singular, significados: self, alma individualizada. Essa palavra é difícil de traduzir, não existe palavra em português que transmita adequadamente seu significado.

नमिति (namiti) => verbo de raiz nam, significados: curve-se, submeta-se.

भूयो (bhūyo), é um caso de sandhi de visarga da palavra भूयः (bhūya:) => gerúndio do verbo tornar(-se), significados: tornando(-se).

न (na), palavra indeclinável, significado: não. Geralmente, tem signicado de negação, não necessariamente apenas não.

भावयन् (bhāvayan) => verbo, significados: considerando, meditando, contemplando.

शेषम् (śeṣam) => palavra neutra, nominativo/acusativo, singular, significados: remanescente, sobra, resto, lugar de descanso (Śeṣanāga).

अभ्युपगम्य , gerúndio da forma verbal अभ्युपगम् (abhyupagam), significados: aproximando-se, chegando a.

अन्तः (antah) => masculino, nominativo, singular, significados: fim, limite, conclusão.

स्वस्थः (svasthah), note o sandhi de visarga da palavra स्वस्थो => masculino, nominativo, singular, significados: estar em si mesmo, estar no próprio estado natural, independente, autossuficiente, saudável.

भव (bhava) => verbo, segunda pessoa do imperativo do verbo de raiz bhū, significados: torna-te.

निज (nija) => palavra masculina, significados: constante, contínuo, nativo.

आत्मना (ātmanā) => caso instrumental singular da palavra ātmā, significado: pelo ātmā, com o ātmā.

Tradução literal

Não meditando, curve-se [e] tornando-se inteiramente [o] ātmā [que está] em todo lugar.

[O] fim, chegando [ao] lugar de descanso, torna-te independente constante com o ātmā.

Tradução adaptada ao contexto

Sem meditar mais, renda-se e torne-se inteiramente como o ātmā que permeia tudo (na verdade, o ātmā é tudo!). No fim, repouse nesse lugar de descanso, tornando-se independente e constante no ātmā.

Discussão sobre o termo que havia sido traduzido como residual (śeṣam)

A partir da tradução palavra por palavra do verso 38 podemos concluir que uma boa tradução para o termo śeṣam é “aquele lugar de descanso” em que a consciência individualizada é capaz de repousar no ápice da prática meditativa. Mas Hemalekha exorta Hemachuda para que ele seja capaz de repousar nesse “lugar” mesmo sem precisar meditar.

Não Existe a Possibilidade de Não-Ação – BG 3.5

Só nos resta agir.

न हि कश्चित्क्षणमपि जातु तिष्ठत्यकर्मकृत् कार्यते ह्यवश: कर्म सर्व: प्रकृतिजैर्गुणै:

na hi kaścitkṣaṇamapi jātu tiṣṭhatyakarmakṛt kāryate hyavaśa: karma sarva: prakṛtijairguṇai:

Pois mesmo quem não está agindo certamente não permanece mesmo por um momento, todos são, de fato,  levados a agir independentemente pelas qualidades  (guṇai:) nascidas de sua natureza (prakṛti).

Experiências, Baratos e a Longa Jornada para a Liberação

Se o Yoga dobrou o seu corpo, mas não dobrou a sua mente, o objetivo não foi alcançado.

Muitos de nós, provavelmente, ao começarmos a nos interessar por assuntos relacionados ao Yoga lemos e ouvimos tudo que temos acesso. Como sobre todos os assuntos, existe muito mais material de baixa qualidade disponível do que bom material.

A pouca disponibilidade de material confiável nos faz acreditar em muitas ideias mirabolantes sobre a jornada no caminho do Yoga. Dentre as ideias mais absurdas que há por aí, existe a ideia de que ter experiências alucinantes pode levar alguém à libertação espiritual. Antes de continuar, caro leitor, perceba que eu não estou afirmando que não existam experiências “loucas” no caminho. Sim, pode haver, mas tais experiências não são o objetivo da prática.

Existem algumas marcas registradas de Yoga comercial que tem como um de seus objetivos causar efeitos de hiperventilação nos praticantes, os quais muitas vezes são/somos inocentes o bastante para achar que o “barato” causado pela prática tem algo a ver com uma coisa mística que as pessoas chamam de kundalini ou aquele estado que dizem que pode ser alcançado pela meditação chamado de samadhi.

A confusão básica que temos aqui é a inversão de causa e consequência. Ou causa e efeito colateral. Práticas sérias de Yoga/Meditação podem provocar efeitos semelhantes a estados alterados de consciência, mas nem todo estado alterado de consciência deve ser considerado sinônimo de evolução espiritual. Se estados alterados de consciência fossem sinônimo de evolução espiritual, todos os usuários de drogas seriam bastante evoluídos espiritualmente. Aparentemente, isso não é verdade.

O progresso na jornada espiritual Yogui deve envolver mudanças cognitivas, pois todo resultado proveniente de ações tem duração proporcional ao esforço empregado para obtê-lo. Apenas o conhecimento/sabedoria é capaz de provocar resultados duradouros. No entanto, a afirmação anterior não exclui a necessidade de praticarmos ações físicas (e.g., ásanas) e mentais (e.g., meditação). Pelo contrário, essas ações são úteis por vários motivos, tais como:

  • Preparar mente e corpo para as mudanças cognitivas que virão;
  • Prover experiências que comprovam o que o conhecimento teórico estabelece como verdadeiro;
  • Trazer saúde e qualidade de vida para que o praticante tenha condições de seguir na jornada adequadamente.

Por fim, lembre-se do seguinte: Se o Yoga dobrou o seu corpo, mas não dobrou a sua mente, o objetivo não foi alcançado.

Sutra 10 – Pada I – Yoga Sutra de Patanjali

अभावप्रत्ययालम्बना वृत्तिर्निद्रा॥१०॥

abhāvapratyayālambanā vṛttirnidrā॥10॥

A atividade do sono [tem como] base a crença na nulidade ॥10॥

Tradução palavra por palavra

अभाव (abhāva), masculino => não-existência, nulidade, ausência.

प्रत्यय (pratyaya), masculino => crença, convicção, fé, verdade.

आलम्बन (ālambana) neutro => suporte, fundação, base.

वृत्ति (vṛtti), masculino, nominativo, singular => atividade, função.

निद्रा (nidrā), feminino, nominativo, singular => sono.

Comentário

Uma tradução alternativa seria: As atividades que ocorrem durante o sono tem como base a convicção em algo que não existe. Observe que ocorre um sandhi de visarga entre vṛtti e nidrā. Nesse caso, a visarga é reescrita como r.

Para acessar a tradução dos outros versos, clique neste link.

 

 

Sutra 9 – Pada I – Yoga Sutra de Patanjali

शब्दज्ञानानुपाती वस्तुशून्यो विकल्पः॥९॥

śabdajñānānupātī vastuśūnyo vikalpaḥ॥9॥

[Um] pensamento, essência vazia, [é] resultado de conhecimento de palavra ॥ 9॥

Tradução palavra por palavra

शब्द (śabda), masculino => som, ruído, palavra.

ज्ञान (jñāna), neutro => conhecimento.

अनुपाती (anupātī), masculino, nominativo, singular => resultado, consequência.

वस्तु (vastu), neutro => coisa, objeto, essência.

शून्य: (śūnyaḥ), adjetivo => vazio.

विकल्पः (vikalpaḥ), masculino, nominativo => pensamento.

Comentário

Na forma composta शब्दज्ञानानुपाती temos dois tatpurushas genitivos:

1) śabdasya + jñāna = conhecimento de palavra (conhecimento verbal).

2) śabdajñānasya + anupātī = resultado de conhecimento de palavra.

Observe, também, que ocorre um sandhi de visarga na com a palavra śūnyaḥ, que passa a se escrever śūnyo. A regra de sandhi de visarga aplicada diz que quando a curto seguido de visarga é seguido de palavra iniciada por consoante sonora, a visarga cai, o a vira o e as palavras permanecem separadas.

Para ver a tradução de outros versos, clique aqui.

 

 

Verso 8 do Pada I Yoga Sutra de Patanjali

विपर्ययो मिथ्याज्ञानमतद्रूपप्रतिष्ठम्॥८॥

viparyayo mithyājñānamatadrūpapratiṣṭham॥8॥

O erro [é] conhecimento incorretamente firme na forma injusta.

Tradução Palavra por Palavra

विपर्ययो (viparyayo), masculino, nominativo, singular => erro.

मिथ्या (mithyā), indeclinável => contrariamente, incorretamente.

ज्ञानम् (jñānam), neutro, acusativo, singular => conhecimento.

रूप (rūpa), neutro => forma.

अतद् (atad), indeclinável => injustamente.

प्रतिष्ठम् (pratiṣṭham) masculino/femino => firme.

Comentário

A tradução literal deste verso ficou meio obscura. Uma tradução interpretativa seria: O erro é o conhecimento firme na forma incorreta.

Para ver a tradução de outros versos, clique aqui.

Verso 7 do Pada I do Yoga Sutra de Patanjali

प्रत्यक्षानुमानागमाः प्रमाणानि॥७॥

pratyakṣānumānāgamāḥ pramāṇāni॥7॥

Os meios de conhecimento [são]: percepção, inferência [e] tradição.

Tradução Palavra por Palavra

प्रत्यक्ष (pratyakṣa), masculino => visível, perceptível, percepção.

अनुमान (anumāna), neutro => inferência, reflexão.

आगम (āgama) masculino, nominativo, plural => de acordo com a tradição.

प्रमाणानि (pramāṇāni) neutro, nominativo/acusativo, plural => medida, escala, meio de conhecimento, conhecimento correto.

Comentário

Observe que, ao contrário do sutra anterior, neste sutra, a palavra प्रमाणानि apareceu separada das outras e no plural. Isso é um indício de que as outras se referem a ela.

Veja a tradução de outros versos neste link.

Verso 6 do Pada I do Yoga Sutra de Patanjali

प्रमाणविपर्ययविकल्पनिद्रास्मृतयः॥६॥

pramāṇaviparyayavikalpanidrāsmṛtayaḥ॥6॥

Conhecimento correto, engano, dúvida, sono [e] lembrança.

Tradução Palavra por Palavra

प्रमाण (pramāṇa), neutra -> medida, escala, meio de conhecimento, conhecimento correto.

विपर्यय (viparyaya), masculino => erro, engano.

विकल्प (vikalpa), masculino => dúvida.

निद्रा (nidrā), feminino => sono.

स्मृतयः (smṛtayah) feminino, nominativo, singular => lembrança.

Comentário

Mais um exemplo de sutra sem verbo, sendo apenas uma lista de substantivos concatenados. Pelo sutra anterior, podemos entender que essas cinco palavras se referem às atividades da mente.  Assim, uma tradução alternativa seria: As atividades da mente podem ser: conhecimento correto, engano, dúvida, sono, lembrança.

Veja os outros versos neste link.